segunda-feira, 9 de setembro de 2019

CRÔNICA: VERDADE SEJA DITA. NÁUTICO É MUITO MAIOR QUE A SÉRIE C

Numa noite inesquecível, só alvirrubros poderiam ter vivido classificação à Série B com tantos significados.

Quando Nicolas fez o segundo gol do Paysandu e abriu 2 a 0 sobre o Náutico, os Aflitos mergulharam no mais absoluto torpor. Aquele silêncio algo constrangido que só acontece em estádios quando tudo dá errado - quando o torcedor concorda tacitamente que a derrota não é mais reversível. Que o time falhou e que aquela esperança - tão viva há minutos - soa quase ridícula. Há quem chore, há quem console, há quem tente inutilmente se equilibrar.
Mas, bem, o futebol existe para mostrar que só está perdido quem se entrega. Que as mais saborosas vitórias são aquelas arrancadas à força. No peito, na raça e na camisa.
Dentro de campo, o Timbu buscou forças sabe-se lá de onde para diminuir com Álvaro e empatar, nos acréscimos, com pênalti cobrado por Jean Carlos. Que levou a disputa para as penalidades - nas quais a frieza dos alvirrubros se sobrepôs aos visitantes, parados por um enorme Jefferson, desde já alçado ao posto de herói timbu.
A apoteose que se seguiu à vitória, à classificação e ao acesso ficarão gravados na memória de cada um daqueles mais de 15 mil torcedores que foram aos Aflitos.
Será contado a filhos, netos e revivido entre amigos.
- E o jogo contra o Paysandu?, dirão, ainda tentando se certificar de que aquilo tudo realmente aconteceu.
Vivemos a era dos julgamentos apressados e das sentenças definitivas. Mas não há exagero em afirmar que a vitória que o Náutico conquistou nos Aflitos, neste domingo, é do tipo que marca uma geração inteira.
Porque subir na Série C, para um torcedor, como o alvirrubro, é diferente. Embora o êxtase seja genuíno e o grito de gol semelhante de um título ou de um acesso à Série A, a sensação é modificada.
O que se celebra não é exatamente a mudança de divisão - mas o vislumbre de um futuro melhor. O início do processo para voltar a um patamar ao qual o Náutico sempre pertenceu.
Tem dúvida disso? Proponho, então, um exercício: veja as imagens do jogo deste domingo. Aflitos lotado, festa para receber o ônibus da delegação, conexão campo-arquibancada que transformou os Aflitos em caldeirão - no qual os adversários da Série C foram fervidos um a um.
O Náutico é um clube que tem gente, tem torcida e - portanto - tem alma.
Segue reticente? Consulte a história. O Náutico já foi vice-campeão nacional na década de 60. Disputou Libertadores. É casa de jogadores como Jorge Mendonça, Marinho Chagas. Viu nascer ídolos como Acosta, Jorge Henrique, Felipe, Kuki. Revelou Muricy Ramalho como técnico de elite.
Transformou Pelé em súdito na Taça Brasil de 66 - quando derrotou o invencível Santos, por 5 a 3. No Pacaembu.
Verdade, no entanto, que o clube cometeu erros que o levaram à Série C. Administrações desastradas se sucedendo indefinidamente fizeram as dívidas crescerem e o sucesso esportivo minguar. Tiraram do Náutico até a sua casa - os Aflitos, abandonados temporariamente por uma asséptica Arena de Pernambuco, que jamais foi lar para o Timbu.
Voltar para a antiga casa era necessário - como mostra o mar de gente que tomou o campo quando o acesso foi consumado.
Mas o acesso para a Série B, embora fundamental, não redime todos os erros. Tampouco é solução para o que quer que seja. O Náutico é um clube com dificuldades financeiras, orçamento justo e que precisa reencontrar um caminho que o conduza à estabilidade.
A conquista deste domingo é apenas o primeiro passo. Mas um passo firme, alicerçado em fundamentos sólidos: responsabilidade financeira, carinho com a base e respeito à história alvirrubra.
É o início de uma caminhada que permite sonhar com dias melhores.
Porque quando se organiza, honra suas tradições e tem o povo de volta para sua casa, o Náutico é muito maior do que a Série C.
Verdade seja dita.

Fonte: Rômulo Alcoforado/Globo Esporte
Fotos: Geórgia Kyrillos (1), Aldo Carneiro/Pernambuco Press (2, 3,4 e 5)