RIO GRANDE DO NORTE

Eleições 2022: Campanha eleitoral de pais, filhos, tios, cunhados e primos

Publicada em 18/04/22 às 05:55h

por Blog Eugênio Freitas


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Eleições 2022: Campanha eleitoral de pais, filhos, tios, cunhados e primos
Eleições serão realizadas em outubro de 2022  (Foto: Ilustrativa)

Por César Santos – JORNAL DE FATO


Em Brasília, no ano de 2018, deputados federais formaram uma força-tarefa para fragilizar a lei que proíbe a indicação de parentes e amigos para cargos de chefias em estatais. O movimento foi visto como uma resistência à ameaça de acabar com a tradição – nociva – de a política brasileira ser um “negócio de família”.

O cientista político Ricardo Costa Oliveira, que estuda a presença das famílias no poder, na época ouvido pelo site The Intercept Brasil, apontou que 62% da Câmara dos Deputados é formada por parlamentares originários de famílias políticas, enquanto no Senado esse número pega o elevador e chega à casa dos 70%. São praticamente dois terços do Congresso Brasileiro ocupados por famílias tradicionais da política.

Esse cenário não deve mudar nas eleições deste ano. A tradição nepotista deve continuar e até aumentar, se o eleitor brasileiro chancelar, com o voto, o domínio parentesco da politica brasileira. Em todos os estados, sem exceção, as famílias de políticos vão buscar aumentar o poderio com candidaturas, principalmente, ao Legislativo.

No Rio Grande do Norte, o cenário que se desenha sugere que as famílias vão dominar as principais faixas de disputas à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados. Levantamento feito pela reportagem do JORNAL DE FATO, com base em pré-candidaturas lançadas, revela que mais de duas dezenas de candidaturas serão de pais, filhos, sobrinhos, primos e cunhados.

Três casais vão ocupar seis candidaturas:

- O deputado estadual Bernardo Amorim (PSDB) tentará a reeleição fazendo dobradinha com a esposa Kaline Amorim (MDB), lançada por ele à Câmara dos Deputados. Bernardo é líder da tradicional família Abel com origem na cidade de Almino Afonso, no Alto Oeste.

- O deputado estadual Albert Dickson (PSDB) e a esposa deputada federal Carla Dickson (União Brasil) tentarão renovar o mandato. Albert e Karla têm apoio do segmento evangélico.

- O vereador natalense Raniere Barbosa (Avante) e a esposa Carla Veruska (Progressistas) são pré-candidatos a deputado estadual e deputada federal. O casal tem penetração forte no eleitorado de Natal e região metropolitana.

A lista traz 10 candidaturas de pais, mães, filhos e filhas pré-candidatos (as):

- O ex-senador e ex-governador Garibaldi Filho (MDB) será candidato a deputado federal no lugar do filho Walter Alves (MDB), que se transfere para a disputa majoritária como provável candidato a vice-governador na chapa da governadora Fátima Bezerra (PT).

- O deputado estadual Getúlio Rêgo (PSDB) buscará o 11ª mandato na Assembleia Legislativa fazendo dobradinha com o filho ex-prefeito de Pau dos Ferros Leonardo Rêgo (União Brasil), que buscará um mandato na Câmara dos Deputados. Eles têm base política-eleitoral na região do Alto Oeste.

- A ex-deputada Sandra Rosado e a filha vereadora Larissa Rosado serão candidatas a deputadas federal e estadual pelo União Brasil. Mãe e filha fazem parte da tradicional família política que atua em Mossoró desde a década de 50.

- Também em Mossoró, o vereador Isaac da Casca e a sua mãe Heliane Duarte, ambos do MDB, serão candidatos juntos à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados.

- O ex-deputado Antônio Jácome (PSD) e o filho deputado Jacó Jácome (PSD) formam outro exemplo da política familiar. Antônio e Jacó serão candidatos a deputado federal e estadual.

Os cunhados aparecem na lista da tradição nepotista potiguar e vão buscar o voto nas eleições deste ano:

- O ex-prefeito de São Gonçalo do Amarante, Jaime Calado (Republicanos), anunciou pré-candidatura à Câmara dos Deputados. Ele é casado com a senadora Zenaide Maia (Pros), irmã do deputado federal João Maia (PL), que buscará a reeleição.

- Na região do Alto Oeste, a ex-prefeita de João Dias, Tássia Veríssimo, fará dobradinha com o cunhado César Maia, ambos do PSDB, à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados. Tássia é casada com o ex-deputado Carlos Augusto Maia.

A lista é completada por dois primos:

- O deputado Galeno Torquato (PSDB), candidato à reeleição, terá Fabrício Torquato (MDB), ex-prefeito de Pau dos Ferros, candidato a deputado federal. Os primos da tradicional família Torquato têm atuação no Alto Oeste potiguar.

Outros nomes estão na lista de pré-candidatos de grupos familiares, como o presidente da Câmara Municipal de Mossoró, Lawrence Amorim (Solidariedade), que é sobrinho do deputado Bernardo Amorim. Ele buscará mandato de deputado federal. Tem também o vereador Felipe Alves (União Brasil), pré-candidato à Assembleia Legislativa, que é sobrinho de Garibaldi e primo de Walter Alves.

A lista pode ser ainda maior, dependendo de algumas decisões em família. O deputado federal Beto Rosado, presidente estadual do Progressistas, poderá ter a companhia da ex-prefeita, ex-governadora e ex-senadora Rosalba Ciarlini, caso ela decida ser candidata à Assembleia Legislativa. Beto é sobrinho afim de Rosalba e primo de Sandra e Larissa Rosado.

Fundo eleitoral

É claro que a decisão é do eleitor e, certamente, as urnas não elegerão todos, mas, a estratégia de candidaturas em família começa abocanhando uma fatia considerável do bolo do fundo eleitoral. São os líderes dos conglomerados político-familiar que comandam os partidos, logo, ficam responsáveis pela distribuição dos recursos, que, invariavelmente, privilegiam as postulações dos parentes.

 

“A estrutura política no Brasil se confunde com genealogias e famílias”, afirma professor Ricardo Costa

O professor Ricardo Costa de Oliveira, titular de sociologia política da Universidade Federal do Paraná (UFPR), afirma que a tradição da dinastia política é mais forte no Brasil e em outros países latino-americanos em razão das disparidades estruturais que marcam essas sociedades desde os tempos de colônia. Ao site Nexo, em uma entrevista, ele respondeu:

 

Famílias na política existem no Brasil desde os tempos coloniais. Qual é o espaço para esse tipo de poder na política atual?

É verdade, essas famílias políticas existem desde o período colonial e podemos localizá-las até hoje na estrutura fundiária do país e em todas as antigas vilas e cidades do Brasil colônia. São os nomes de logradouros locais, avenidas, ruas, escolas, hospitais. Não é diferente atualmente. O uso do capital político familiar permanece se reproduzindo por dentro do Estado, muitas vezes com as mesmas mentalidades, a partir do mesmo “ethos” político. Ainda hoje, grande parte dos senadores e deputados federais, dos membros da magistratura, da cúpula militar, da diplomacia possuem relações com famílias políticas.

 

Em outras profissões, não é incomum que filhos sigam a carreira dos pais. O que difere o campo político dessa lógica?

O campo político reproduz a mesma lógica dominante, que perpetua o problema da grande desigualdade social e política brasileira. Aliás, boa parte da estrutura social e política no Brasil se confunde com genealogias e famílias. Enquanto os filhos da pobreza, da periferia e da exclusão, geralmente negros e mestiços, continuam a seguir os destinos das mães e dos pais, famílias com grande patrimônio e renda, geralmente brancas, conseguem reproduzir suas redes sociais, privilégios e boas carreiras ao longo de várias gerações. No campo político, especificamente, a perpetuação do poder familiar significa a manutenção, pelas mesmas pessoas, do controle do Estado, do Orçamento e das políticas públicas. É um círculo vicioso de concentração de recursos e poderes em poucas famílias — algo que inclusive permite diferentes formas de corrupção. Muitos conselhos de estatais, por exemplo, são dominados por famílias políticas que privatizam serviços que deveriam ser públicos. Enfim, só entenderemos o Estado, a política e a sociedade no Brasil se entendermos a dinâmica das famílias políticas.

 

O que caracteriza uma família política e como o uso do capital político de parentes ocorre nesse tipo de estrutura?

Uma família política se caracteriza pela transmissão do poder e dos cargos pelas relações familiares, muitas vezes com o mesmo sobrenome. Isso inclui desde famílias tradicionais, que operam na política desde os tempos anteriores à independência do Brasil, como os Andrada, de Minas Gerais, até os novos políticos emergentes que criam uma nova tradição familiar na política a partir de si próprios. Nos dois casos, podemos observar como as campanhas de jovens herdeiros políticos quase sempre são as mais ricas, bem aparelhadas, com muito dinheiro dos fundos públicos [Fundo Partidário e Fundo Eleitoral], muitos cargos comissionados e cabos eleitorais.

 

Existe diferença no uso do capital político familiar entre partidos à esquerda e à direita?

Verificamos casos de famílias políticas tanto na esquerda quanto na direita, em quase todos partidos políticos. Grupos familiares frequentemente controlam diretórios regionais de partidos e juventudes partidárias.

 

Não é diferente em outros Poderes

Reportagem do site The Intercept Brasil sobre o domínio do poder por famílias tradicionais mostra que a lógica de domínio pelo parentesco também se dá em todas as outras esferas de poder da sociedade. Além dos executivos e legislativos estaduais e municipais, famílias tradicionais dominam o Ministério Público, todos os níveis do judiciário, os tribunais de conta, e por que não lembrar, os oligopólios de mídia.

No Supremo Tribunal Federal, até 2018, oito dos 11 ministros tinham parentes importantes na área do Direito. Na força-tarefa da Lava Jato, que ganhou fama por desmantelar o esquema criminoso dentro da Petrobras, metade dos seus integrantes tinha familiares magistrados e procuradores.




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